quinta-feira, 9 de julho de 2009

HAKIM BEY para iniciantes

Desde Heráclito os filósofos pensam sobre instabilidade e impermanência. Na política, o assunto é debatido desde Aristóteles e Platão e é, provavelmente, o tema principal da disciplina, mesmo antes de ela ser considerada "ciência", no século 19: por que um governo nunca é estável e tem de conviver com inúmeros conflitos? Por que o caos nunca morre? Mesmo as ditaduras mais radicais têm de conviver com pontos onde os poderes se dissolvem e são questionados. Sempre há lugares, grupos e pessoas que não aceitam se subordinar. Por mais que sejam derrotados e incorporados pelos Estados em troca de uma suposta estabilidade, segurança e equilíbrio, esses "núcleos de caos" se renovam e se transformam na História da humanidade, nunca desaparecem. No final dos anos 80, um pensador norte-americano chamado Peter Lamborn Wilson começa a se dedicar ao estudo dessas experiências temporárias de subversão. Mais conhecido como Hakim Bey, ele não dá entrevistas, não se deixa fotografar, diz ser sustentado pelo "Wilson Family Trust" e lança textos com copyright livre, distribuídos em fanzines, sites e via emails. Procura não se comportar como um "autor", tenta desaparecer, mas não muito - em quase todos os seus escritos há uma pista de quem ele é e de que vive em New Jersey, EUA. Diz não tentar bancar o teórico mas escreveu um livro chamado TAZ – Zonas autônomas temporárias, no qual passa o texto todo fazendo teoria, definindo um conceito. O de TAZ, que nos faz retomar a idéia de impermanência.Revolução ou revolta? Hakim Bey critica a idéia de revolução. Ele aprendeu com o filósofo Max Stirner (1806-1856) que a tomada do Estado geralmente leva a instauração de novas ditaduras e outras relações baseadas nos mesmos princípios: violência, obediência, sujeição e vigilância. As revoluções querem prosperar, isto é, durar. Enquanto isso, levantes e insurreições são considerados fracassados porque são derrotados após algum tempo de resistência. Stirner inspira Bey a perguntar: o que acontece durante o tempo em que a insurreição esteve viva? Que tipo de intensidades foram vividas ali? Estas devem ser valorizadas. Não criar um novo poder, mas inventar espaços de liberação. Durem o quanto durarem. Este é o cerne da idéia de zona autônoma temporária: lugares no espaço, no tempo e nas idéias que escapam dos poderes. Ou melhor: invisíveis aos poderes, durante algum tempo e de uma maneira nunca absoluta – já que não existe "liberdade total". TAZ são espaços nos quais pessoas desenvolvem autogoverno(s) e expandam desejos múltiplos. Festas, comunas, surubas, invasões ou simplesmente comunidades, livre-associações. Bey identifica diversas TAZ na história: algumas ilhas habitadas por corsários e piratas (como as míticas Salé e Libertatia), os primeiros momentos dos levantes de maio de 1968 na França, além de inúmeras insurreições que proporcionaram experiências de pico. Esperando Godot? Assim, o problema não é se libertar, mas liberar-se. Não é preciso esperar o mundo mudar. Nem agir segundo um planejamento abstrato para que ele atinja um sentido que seria "seguro" e "justo". Falamos sobre Caos, criação permanente: "Você pediu uma utopia prática & possível. Aqui está ela. Um esquema que poderíamos adotar amanhã, a não ser pelo fato de que todos os seus aspectos violam certas leis, revelam alguns tabus absolutos da sociedade norte-americana, ameaçam a própria trama social etc. Este é o nosso desejo verdadeiro & para realizá-lo precisamos contemplar não apenas uma vida de arte pura, mas também o crime puro, a insurreição pura. (...) O CAOS não se importa nem um pouco com o futuro da civilização". Não há paraísos, nem previsão de um futuro estável e domesticado. A TAZ também não é "democrática" e politicamente correta. Não se trata de performances em frente das câmeras de TV, nem de ONGs, mas de correr riscos. Do ponto de vista do poder, uma TAZ não é apenas engraçadinha ou pitoresca. É crime, tabu ou, no mínimo, um perigo a ser vigiado. Por isso Bey enfatiza que a TAZ é também uma tática de desaparecimento. Você não quer ser visto, rotulado... ou pego. O que estou fazendo da minha vida? Se a revolução é geralmente conservadora, as preocupações de uma revolta diária são radicalmente diferentes. Sai de cena a ênfase no governo, seus mecanismos e instituições. Entra a vivência intensa do cotidiano: quero comer bem e não comida somente industrial; ter acesso a alimentos e experiências proibidos; fazer sexo com quem desejar ("na família só me interessa a possibilidade do incesto"); poder circular pelo mundo sem me prender a nacionalidades, sem pertencimentos absolutos a culturas ou Estados. O enfoque no dia-a-dia é herdado dos situacionistas, particularmente de Raoul Vaneigem. Mas vai além ao se aliar a idéias dos filósofos franceses Gilles Deleuze e Felix Guattari. Hakim Bey propõe o nomadismo psíquico ou cosmopolitismo desenraizado. Correr ou ficar? Muitas pessoas acham que nômade é igual a migrante (que vai de um ponto determinado a outro), ou cigano (que sempre muda de espaço). Pelo contrário, é aquele que sente toda a Terra como seu habitat. Ele não quer sair de um lugar, é obrigado a isso. E quando o faz, não tem um destino planejado. Como diz Deleuze/Guattari, no seu Tratado de nomadologia, o nômade se move de maneira turbilhonar pelo espaço. E faz das suas roupas e pertences, o seu "território". O nômade nunca muda, ele sempre está em casa. Por isso nomadismo psíquico não significa turismo das idéias. E sim a capacidade de ir além dos cientificismos, pós-modernismos, objetividades, misticismos, religiosidades e até alucinações. É movimentar-se turbilhonarmente pelo conhecimento. Pensamento máquina de guerra. Diz Bey: "abra um mapa do território; sobre ele, coloque um mapa das mudanças políticas; sobre ele, um mapa da internet, especialmente da contra-net, com sua ênfase no fluxo clandestino de informações e logística; e, por último, sobre tudo isso, o mapa 1:1 da imaginação criativa, estética, valores. A malha resultante ganha vida, animada por inesperados redemoinhos e explosões de energia, coagulações de luz, túneis secretos, surpresas". Ele desenvolve melhor estas idéias em seu texto O palimpsesto. Hakim Bey incentiva o descolê? A parte mais conhecida do pensamento de Hakim Bey é a que se refere às técnicas de Terrorismo Poético (TP) e Arte-Sabotagem (AS). Herdadas do dadaísmo e do Provos holandês, essas técnicas acabaram incentivando o aparecimento de algumas "vanguardas" no Brasil. São pequenos grupos de "artistas" que celebram a si próprios fazendo encenações uns para os outros. Mas as propostas de Bey têm muito pouco a ver com isso. TP é uma ação ritualística que visa transformar, causar um momento de espanto, medo ou intensidade. Dançar nu para simbolizar algo; invadir locais não para roubar, mas para deixar mensagens ou objetos (exemplo: um vibrador em cima de um painel de caixa eletrônico); ou até "seqüestrar alguém & fazê-lo feliz". Não se trata de performances para grupos que entenderão aquilo que você vai fazer. TP dirige-se exatamente àqueles que não vão considerá-lo artista. Não objetiva apenas aparecer na mídia. Não é entretenimento para a sociedade de controle. A Arte-Sabotagem esbarra em aspectos já conhecidos dos regimes políticos, fascistas ou democráticos: censura e violência. É Hakim Bey que sugere: "Queima pública de livros – por que caipiras reacionários & funcionários das alfândegas devem monopolizar esta arma?" Mais: "Jogar dinheiro para o alto no meio da bolsa de valores seria um Terrorismo Poético bastante razoável – mas destruir o dinheiro seria uma excelente Arte-Sabotagem. Interferir numa transmissão de TV & colocar no ar alguns minutos de arte incendiária e caótica seria um grande feito de TP – mas simplesmente explodir a torre de transmissão seria um ato de AS perfeitamente adequado". O autor diz que AS é contra idéias e não contra pessoas, mas todos sabemos que nem sempre se consegue atingir uma sem esbarrar nas outras. Ou seja: definitivamente, estas não são técnicas para aqueles que acreditam na democracia, nos poderes do terceiro setor e dos assistencialismos. Um autor para a internet? As idéias de Hakim Bey se espalharam no Brasil principalmente por meio da internet, o que faz muita gente pensar que a TAZ e suas técnicas de revolta cotidiana sejam voltadas à rede. Mas elas são extremamente corporais, físicas. Por mais que a internet possa ser considerada um lugar de relacionamento nada virtual - que também altera corpo e mente, além de movimentar toda uma rede de relações sociais e tecnológicas muito materiais - , Bey insiste que a TAZ deve evitar as mediações. Sejam telas de computador, instituições, TVs ou aparelhos. A internet é importante como uma ferramenta para criar TAZ. Mas não só: permite circular informações clandestinas, desenvolver a pirataria e ter acesso a bens proibidos via hackers. Além de possibilitar a existência de algumas estruturas não hierarquizadas de produção e divulgação do conhecimento. Um "sedutor de menores"? Bey é um autor que faz inúmeras sínteses e, por isso mesmo, torna-se muito sedutor. Articula idéias dos filósofos Gilles Deleuze, Feliz Guattari, Nietzsche, dos situacionistas e do Provos (grupos que influenciaram as manifestações de Maio de 68 na França e a contracultura), do surrealismo, dadaísmo, sufismo, piratologia, Burroughs e Beats. Enfim, um mosaico de quase tudo o que se produziu em termos de "idéias subversivas" nos últimos dois séculos. Infelizmente, ainda é lido de três maneiras que raramente se misturam: 1) como um maconheiro erudito, que lemos pelo prazer de ouvir as palhaçadas; 2) como um "terrorista" isolado, falando para um grupelho de místicos; 3) como o revoltado da moda entre alguns descolês da internet. Parafraseando Nietzsche, para lermos Hakim Bey, talvez nos falte algo nada humano, mas bovino: a capacidade de ruminar.

REALIDADE AUMENTADA




Bonsor, Kevin. "How Augmented Reality Will Work." 19 February 2001. HowStuffWorks.com. <http://www.howstuffworks.com/augmented-reality.htm>

terça-feira, 7 de julho de 2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

WELCOME TO THE HUMAN NETWORK



Bem-vindo!
Bem-vindo a um dia completamente novo,
a um novo jeito das coisas serem feitas.
Bem-vindo a um lugar onde mapas são refeitos e aldeias remotas são incluídas.
Um lugar onde a linguagem do corpo é a linguagem dos negócios,
onde as pessoas adicionam pessoas, não assinam revistas,
e o time que você acompanha, agora acompanha você.
Bem-vindo a um lugar onde os livros se reescrevem,
onde você pode pegar e deixar as pessoas onde elas quiserem ir
e um telefone funciona como uma passagem de trem, de avião...
Bem-vindo a um lugar onde um casamento pode ser visto e revisto,
de novo e de novo.
Onde um homevideo pode ser experienciado em qualquer lugar
e onde uma biblioteca viaja pelo mundo,
onde os negócios nascem, países se transformam
e nós somos mais poderosos juntos do que jamais seríamos se fossemos separados.
Bem-vindo à Human Network.

Comercial Cisco - música: Baba O'Riley by The Who